Pensem como quiserem, mas, para mim, tal como na antiga e atual URSS e antes do 25 de Abril de 1974, nós só sabíamos o que o Estado Novo queria que se soubesse ou não, sendo a generalidade dos portugueses praticamente apolíticos ou despolitizados.
A política era para um escol de privilegiados políticos, politiqueiros e ainda com intermediários que semeavam ameaças do tipo “não te metas nisso, olha que é perigoso e fulano até foi preso”, e muito mais…
Até me lembro da tabuleta que o barbeiro senhor Barros ostentava na barbearia em frente do cruzeiro comemorativo de 1640, 150 metros abaixo da velhinha igreja paroquial e ao lado da capela de Santo André e onde funcionava a antiga feira local, capela do Senhor dos Passos, hoje no cume do monte de Celorico, em Joane, e onde se podia ler em letras impressas e bem visíveis: “Aqui não se fala nem de religião nem de política”. Um cartaz não era único e que andava disseminado por aí. Para bom entendedor…
E se pensarmos no analfabetismo reinante e na ausência de eletricidade e rádio, que a TV e o frigorífico ainda vinham longe, sendo o automóvel ou a moto coisas de ricos, facilmente se perceberá porque os tascos e as tabernas emitiam os relatos de futebol aos berros com o rádio pendurado à porta e camuflado em ramo viçoso de loureiro, em domingos bem soalheiros à tarde e depois de rezar o terço, anunciando boa pinga também, enquanto os gatos se maquilhavam por perto e os clientes bebericavam tinto verde e gastavam o que não tinham. Mas Salazar, dizia-se, teria insinuado ou dito que esse mesmo vinho alimentaria meio milhão de portugueses.
Algo que o atual ministro da Agricultura, de face rosada, terá ouvido como eu, reafirmando recentemente e de forma mais científica o mesmo, o que terá indignado a classe médica, e depois de largo curriculum europeu, igual, aliás, ao do colega e amigo da Defesa, indefetível do Atlético de Madrid, bem perto da “nossa” Olivença, agora que não podemos clamar pela “nossa” Angola… como badalavam desde o altar os três magníficos descendentes de Melquisedeque, rei de Salém…
Aí pelos fins da II Guerra Mundial, com a ditadura fascista no apogeu, eu já leio nas paredes da vetusta Casa da Igreja os nomes de candidatos à Presidência da República, como Quintão Meireles, Arlindo Vicente, Norton de Matos e Óscar Carmona que, eleito, acabaria por morrer poucos anos depois, feriado que celebramos na escola com espalhafato e por não estarmos à espera e ignorar a razão do feriado. Retrato nas salas só o de Salazar.

A propósito, aquela brincadeira de mau gosto, pretensamente de honra e preito a Lino Lima, quase em frente à Câmara Municipal. É para rir, denegrir e ridicularizar o seu nome e obra ou para o exaltar, evidenciar e recordar com dignidade na sua terra pelo combate árduo que travou pela liberdade?…
Depois comecei a ouvir falar de Humberto Delgado por causa de uma frase escrita na brancura da parede da casa da igreja do seguinte teor: ”Deus?… Que Deus?.. Deus não existe. Que o adore o preto ou o escaravelho… Votai em Humberto Delgado.” Claro que nunca encontrei esta frase na sua obra e nem no seu livro “Da Pulhice do Homo Sapiens” (1933) ou outros. Quem a teria escrito e quem a teria mandado escrever?…
Mais tarde, Henrique Galvão, Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre outros do reviralho, da oposição e contra a situação e, mais proximamente, o exílio escandaloso do bispo do Porto, Dom António Ferreira Gomes, célebre na sua frase “De joelhos diante de Deus e de pé diante dos homens”, além de Vítor de Sá, em Braga, Santos Simões, em Guimarães e Lino Lima, Macedo Varela e Armando Bacelar, em Vila Nova de Famalicão e, mais tarde, Margarida Malvar, Pinheiro Braga e Joaquim Loureiro.
A propósito, aquela brincadeira de mau gosto, pretensamente de honra e preito a Lino Lima, quase em frente à Câmara Municipal. É para rir, denegrir e ridicularizar o seu nome e obra ou para o exaltar, evidenciar e recordar com dignidade na sua terra pelo combate árduo que travou pela liberdade? É que não parece!… Sem respeito para simples banco ou catre. Haja respeito, simplesmente. Bastaria uma glorieta e uma efígie com água e flores!
Entre nós, a vida nos anos de 1950 do século XX era mesmo muda, queda e seca, parada e patética e quase ao ritmo da chiadeira dos carros de boizinhos fortes como leões e “coração de passarinhos”, como escrevia o inspiradíssimo Lopes Vieira de Leiria/S. Pedro de Muel, esse mesmo que, referindo-se ao velho pinhal do Rei, escrevia que era “uma catedral verde sussurrante”, carregados de madeira ou mato e pedraria que desciam pelas quelhas pedregosas dos montes cimeiros em Joane e fazendo rechinar e fumegar até os aros quentes e luzidios das rodas e com realce ainda para o toque regular dos sinos por morte de crianças/anjinhos que por essa altura morriam como tordos, merecendo um espaço especial no cemitério da Devesa alta, por oposição ao velho cemitério que envolvia desde sempre a antiga igreja de Joane e a casa de meus avós Virgínia e Agostinho, pertença da Marianinha da Igreja e sufragânea ao antigo cemitério à volta da mesma Igreja.

Entretanto, contra tudo e todos, um grupo de átilas, mais alguns desatentos valdevinos entre eles, o insuspeito e inefável vereador da Cultura ao tempo, sendo o tratorista de serviço/primo do motosserrista da falecida acácia do Jorge há poucos dias, Américo Monteiro da Labruge, o seu algoz maior e que pela calada da noite e como atuava a famigerada PIDE, numa madrugada de inverno, em março de 1978, reduziram a velha ermida e depois igreja de séculos a escombros e caliça, mantendo a torre sineira de pé para chamar os fregueses, estando em Coimbra a estagiar na Avelar Brotero em Filosofia e Psicologia e depois de Benjamim Salgado ter falecido a 28 de Janeiro de 1978, quatro anos quase depois do 25 de Abril, autor do livro “A Igreja do Divino Salvador de Joane” e em que, logo no prefácio, escreve assim:
”Qualquer igreja, humilde ou artística, simples ou sumptuosa, de feição rural ou proporções citadinas, como casa comum dum povo que peregrina através da História, é, em si mesma, um documento histórico: encerra uma mensagem do passado, é testemunha da vivência de uma multidão, de inúmeras multidões, que nela ajoelharam e rezaram, cantaram os louvores de Deus e se acalentaram como em lareira de fé e de esperança cristã, ganharam coragem para as durezas da vida e se atentaram para os transes da morte… Tudo razões sérias e ponderosas para merecerem tais edifícios o respeito e a veneração dos vivos de qualquer tempo.”
É claro que se ele fosse vivo outro galo cantaria, que o respeitinho era muito bonito e todos lhe reconheciam na sua simplicidade e humor e gosto de viver, uma grande dignidade e inteligência, e talento a rodos e aquela “gravitas”, todas forradas de sensibilidade, erudição e cultura. Ele partiu e foi dos maiores funerais que vi em Joane, ele quase nossa visita amiúde de casa, pois que os padres de então eram ignorantes e submissos e os que iam à igreja não eram os que mandavam pelo que, também aqui, “quod non fecerunt barbari fecerunt barberini”, digo, os ignorantes e os novo-ricos dos jaguares e capelas nas quintas mas com teias de aranhas muito velhas e muita caca e restaurador Olex nas cabeças brilhantes em vez de neurónios… como se sabe. E também nós, a partir dessa altura, perdemos muito do amor a Joane, terra natal de meus pais e avós.
Em 1953 fui para o Seminário de Viana do Castelo e foi um dia de totoloto para mim, pois que na escola, quase tudo andava descalço e os votos dominantes eram: estudar para ser Homem e de outro lado, muito poucos diria, os donos de terra, montes e campos de milho e centeio que as fábricas estavam a começar ali por Riba de Ave, Pevidém e Rio Pele e já apareciam os que diziam: “Eu venho à escola porque quero; que os meus pais são ricos, não são pobres como tu e eu tenho tudo e não preciso de nada, nem de estudar. E já iam de carro e “chauffeur”, governanta e pasta para a escola. Mas foi terrível, afinal, para alguns que passaram a vida a tirar o chapéu aos mecenas!…
Estava para ir para Macau com o dr. Silva Rego, antigo Presidente da Academia Portuguesa de História, que também por lá andou e se formou e dinheiro não havia para estudar em Braga porque caro e longe, então, decidindo os meus pais que o rapaz ia para Viana com o Amadeu, da Casa da Hora, o vizinho Martins Machado, o Joaquim Fernandes, do Silvestre da Tapada, e outros.
Começa a guerra colonial em fevereiro/março de 1961 e o país chega a gastar à volta de 60% do orçamento na mesma. Entretanto, tinha saltado o muro do convento e fui logo agarrado para a guerra nas suas três ou mais frentes. Fui e vim da mesma em 1968, com 26 anos, ao lado de meus 2 irmãos que estiveram lá também, em Moçambique e Angola, e vieram salvos e vivos como eu para o abraço de meus pais, que muito envelheceram durante esta peleja que durou bem mais que a guerra de Troia.
Foi uma sorte imensa acontecer o 25 de abril de 1974 pelo êxito dos valorosos capitães, com realce para Salgado Maia e militares, clarividência e coragem de Eanes a par do grande combatente pela democracia e liberdade e capacidades humanas brilhantes de Mário Soares. Assim rezará a história, que os Spínolas e Otelos, a par dos Vascos Gonçalves e Alpoins e Pachecos Amorim, ficarão todos na espuma dos dias e noites sem história e só ficarão no fundo das gavetas entre traças e baratas como Cunhal, falso adorador do monstro Estaline, que idealizava ser ele e seus “muchachos” a vanguarda esclarecida da escola de Putin, dominar o pescoço pela soga e colocar a canga e o jugo comunista nos sofredores portugueses de há muitos anos, fazendo da gente ousada de outrora novos escravos para sempre, glosando o grande Camões.
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