Apesar das dificuldades por que passa atualmente, a indústria portuguesa de panificação tem condições para se “reinventar” e “responder aos novos consumidores”, em cuja dieta o pão, apesar do seu “alto valor nutricional”, está a perder centralidade. Para isso, tem de “aprofundar o seu património tradicional e o seu saber fazer”, mas dentro de um conceito de “retro inovação”, para “surpreender, evoluir e ser cada vez mais sustentável”.
Foi esta a mensagem que Amândio Pimenta, mestre padeiro luso-francês, que já foi considerado o melhor profissional da padaria artesanal francesa, deixou aos cerca de 80 empresários e gestores do sector, oriundos de todo o Norte de Portugal, que participaram no encontro com que, na última quarta-feira, se assinalou o “Dia Mundial do Pão”, na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.
Também formador e estudioso das técnicas ancestrais de produção artesanal de pão, Amândio Pimenta sustentou que o momento menos bom da indústria portuguesa de panificação “não é exclusivo” do nosso país, nem tem só a ver com a diversidade de formatos comerciais, desde a moderna distribuição às “boutiques” de nicho, que hoje se podem encontrar um pouco por toda a Europa. A questão central, sustentou, é mesmo o papel do pão na dieta alimentar das pessoas e das famílias europeias.
“O pão já não é a base da nossa alimentação. Lamentavelmente, é percecionado como um acompanhamento. Compete-nos voltar a colocar o pão no centro, porque é esse o seu lugar numa alimentação equilibrada e numa vida saudável”, afirmou aquele que é também um dos membros do seleto clube europeu dos “Embaixadores do Pão”
PRODUTOS QUE POTENCIEM PROTEÍNA VEGETAL SÃO “OPORTUNIDADE”
Essa tarefa pode, aliás, vir a ser facilitada se as opções políticas europeias, com as mudanças em perspetiva para a Política Agrícola Comum, vierem a favorecer as fontes de proteína vegetal, como as leguminosas, em detrimento da carne de origem animal. “O grão e as lentilhas, por exemplo, quando combinados com os cereais certos, podem fornecer os aminoácidos de que precisamos. E então o pão pode ser uma alternativa válida a alimentos proteicos mais caros, como a carne”, referiu Amândio Pimenta, que advogou o “investimento em formação e capacitação” dos jovens padeiros.
Também presente no encontro – intitulado “Conversas sobre Pão” e coorganizado pela Associação dos Industriais de Panificação, Pastelaria e Similares do Norte (AIPAN) e pelo grupo moageiro Better Foods –, o empresário famalicense de panificação César Ferreira disse que “o caminho a seguir é sermos fiéis a nós próprios, inovando com saudade”. Só assim, acrescentou, “estamos em condições de garantir pão com a qualidade e o saber de antigamente”.
Por seu lado, Elisabete Ferreira, empresária e mestre padeira em Bragança, formadora e dirigente do Clube Richemont Portugal, chamou a atenção dos participantes para os desafios da sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor, desde a origem do cereal até ao aproveitamento do produto final que não é vendido no dia em que é fabricado. Sublinhou que as empresas e os padeiros portugueses têm de “incorporar a sustentabilidade nas suas boas práticas e rotinas diárias”, não só por questões de competitividade e inovação, mas também por “respeito aos consumidores e aos recursos existentes na Terra”. É que, lembrou, “cerca de um terço do pão que se produz diariamente no mundo ainda vai para o lixo”.
IMPORTA INFORMAR O CONSUMIDOR
Inácio Santos, presidente da Direção da AIPAN, foi outro dos oradores do encontro, tendo reconhecido a necessidade de o pão ser “valorizado como alimento fundamental no dia-a-dia da maioria dos portugueses”. E isso passa pelos profissionais do ofício, alertou, no contacto direto com o consumidor. “Os padeiros e os profissionais de panificação devem saber informar os consumidores das diferenças de cada tipo de pão e da importância nutricional do pão”, exemplificou.
Talvez assim, disse esperançado o presidente da associação representativa de 600 industriais nortenhos do sector, se possa “contrariar uma comunicação ruidosa que se vem instalando em algumas franjas da sociedade portuguesa sobre os efeitos negativos do pão. Bem pelo contrário, o consumo informado de pão devia ser alvo de uma campanha informativa pública, para que as pessoas, designadamente as crianças, tirassem dúvidas e soubessem que os cereais e o pão continuam a ser elementos centrais na roda dos alimentos”.
Outro dos oradores deste “Conversas sobre Pão” foi Francisco Figueiredo, administrador do grupo Better Foods, que destacou a importância do comportamento e dos gostos do consumidor no desenho de uma estratégia coletiva de resposta às dificuldades por que passa a panificação portuguesa, responsável por um volume de negócios superior a mil milhões de euros em 2023.
“A inovação, os novos modelos de negócio, a interação e a cooperação entre a tradição e a moderna distribuição e a formação profissional são fatores de desenvolvimento e tarefas incontornáveis. Ninguém que conheça o sector duvida”, afirmou. Mas, prosseguiu, “é fundamental conhecer as tendências de consumo, analisar o comportamento do consumidor, estudar tendências, antecipar mudanças e responder às novas necessidades do mercado. E isso pode e deve ser feito juntando o maior número possível de operadores, porque assim a indústria da panificação, como um todo, ficará a ganhar”.
Na abertura do encontro marcou presença o vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Ricardo Mendes, que se congratulou com a realização do mesmo em São Miguel de Seide.
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